Quando pensamos em amor, é comum imaginarmos os grandes gestos. Uma declaração inesperada, uma surpresa preparada com cuidado, uma viagem a dois, um pedido de casamento ou aquele “sim” dito diante de familiares e amigos. São momentos importantes, daqueles que merecem ser lembrados e fotografados. Mas, quando acompanho histórias de casais, percebo cada vez mais que existe outro tipo de amor, menos visível e talvez ainda mais importante: aquele que aparece nas pequenas escolhas de todos os dias.
Porque o casamento não acontece somente quando duas pessoas estão ali comigo no altar. Ele acontece também numa terça-feira qualquer, quando um dos dois chega cansado e o outro percebe. Acontece quando alguém prepara um café sem que seja preciso pedir, quando guarda o último pedaço de sobremesa porque sabe que o outro gosta, quando pergunta como foi o dia e realmente presta atenção à resposta. O amor está nessas pequenas escolhas e são essas que eu adoro contar nas minhas cerimônias.
Está em decidir conversar quando seria mais fácil se fechar. Em escolher ouvir antes de responder. Em perceber que, às vezes, o outro não precisa de uma solução, mas apenas de alguém que permaneça por perto. E isso ficou muito evidente na história da Camila e do Gabriel, que ilustram essa coluna e cuja a união tive a honra de celebrar na Fazenda Marambaia, em Limeira.
Ao longo dos anos, o casal muda. Mudam os planos, a rotina, as prioridades, o corpo, a profissão, a casa e até os sonhos. Chegam responsabilidades que não existiam no início da relação. É justamente nesse movimento da vida que as pequenas escolhas ganham ainda mais significado. Gabriel e Camila têm lindos relatos nesse sentido.
Escolher continuar conhecendo quem está ao nosso lado, por exemplo. Parece estranho falar em conhecer alguém depois de tantos anos juntos, mas talvez seja uma das tarefas mais bonitas de um casamento. A pessoa que está ali ao lado hoje não é exatamente a mesma de anos atrás. Ela passou por experiências, venceu algumas batalhas, enfrentou medos, mudou de opinião, descobriu novos desejos. Amar também é ter curiosidade por essa pessoa que continua se transformando.
Há casamentos que atravessam décadas não porque os problemas deixaram de existir, mas porque o casal aprendeu a enfrentá-los lado a lado. E isso também é uma escolha.
Escolher preservar um espaço para o casal quando a rotina parece ocupar todos os horários. Escolher celebrar pequenas conquistas. Escolher manter uma tradição que nasceu por acaso. Escolher caminhar de mãos dadas mesmo depois de tantos anos. Escolher olhar para o outro e lembrar que, antes de todas as obrigações que a vida trouxe, existem duas pessoas que um dia decidiram construir uma história.
Talvez seja por isso que algumas das histórias de amor mais bonitas não sejam necessariamente aquelas que parecem perfeitas. São aquelas em que percebemos a presença da parceria. Porque, no fim das contas, uma vida a dois não é construída apenas pelos grandes momentos que merecem fotografia. Ela é construída por milhares de pequenas escolhas que quase ninguém vê. É nelas que o amor encontra a forma mais verdadeira de permanecer.
João Paulo Baxega, é jornalista e celebrante de casamento

