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Casamentos, orçamentos e falcatruas

Tive uma experiência muito chata no mês passado. Ao chegar a um espaço de eventos na região de Limeira, encontrei com a simpática proprietária do lugar. Como sempre chego com uma hora de antecedência ao horário do convite do casamento, tive tempo para colocar os assuntos em dia com aquela querida amiga. Foi nesse momento que ela me contou que uma moça que irá se casar em breve comentou que não iria me contratar como celebrante alegando que meu cachê era muito alto. A tal noiva revelou o valor que haviam passado a ela, um montante 49% a mais do que realmente cobro. Ao ouvir essa história, fiquei estarrecido, indignado. Rapidamente entendi que havia alguém agindo de má fé junto ao casal e, claro, comigo.

Para melhor entender. Há uma prática comum em alguns segmentos que implica em um bônus para quem indica algum profissional para uma prestação de serviços. É o famoso BV. Alguns profissionais do mercado de casamentos acabaram aderindo a essa dinâmica, que eu condeno. Essa prática autoriza que, em caso de indicações, esses profissionais coloquem um percentual a mais e embolsem uma fatia do pagamento do outro prestador de serviços. Não vou me aprofundar nessa questão. Eu não concordo, mas há profissionais que atuam com muita tranquilidade, sem constrangimentos, e esse tema sempre vai render discussões acaloradas.

Meu ponto é outro. A pergunta que deixo no ar é uma questão ética. Fica claro para o cliente, no caso os casais, que essa “negociata” acontece nos bastidores? Considero essa uma questão determinante e lamento informar que, na maior parte dos casos, a resposta é: não. Essa informação não circula por motivos óbvios: o percentual que vai para o bolso do intermediário das indicações é pago pelo cliente, no caso do mercado de casamentos, pelos casais. Sabemos que casar implica em investimento altíssimo. É justo agir dessa forma com os noivos? Será mesmo que sem essa valiosa (e onerosa) indicação o casal não chegaria à contratação de um bom fornecedor? Convenhamos!

No meu caso, descobri que uma profissional embutiu um percentual em cima do meu cachê sem me consultar. Ela certamente agiu assim por saber que eu jamais concordaria. O que ela não imaginava é que eu descobriria! A falta de caráter, a usurpação de direitos e a malandragem vieram à tona por um acaso. Uma situação que ainda será esclarecida. Porém, fico pensando no quanto ela deve ganhar em cima de outros fornecedores. Quantos ainda não descobriram que são usados para esse golpe? E mais. E os casais que contratam essa pessoa? Quantos já foram lesados?

Ao descobrir esse fato, corri para as redes sociais para denunciar. Recebi várias mensagens de profissionais que passaram por situações parecidas. Algumas até piores. Um amigo celebrante teve o orçamento rasurado. O intermediário alterou o documento. Colocou um valor superior, enviou para os noivos e, tempos depois, a situação foi descoberta. É claro que o casal revogou o contrato com tal profissional.

Diante desse cenário, deixo uma orientação geral para os noivos. Tenha contato direto com todos os fornecedores que irão atuar no seu casamento. Mesmo que haja alguém colhendo os orçamentos por você, peça para ver, arquive esse material. Além disso, converse com outros casais que contrataram os mesmos fornecedores e pergunte sobre os valores investidos. Os casais adoram trocar experiências dos preparativos para os casamentos. Não se deixe ludibriar!

Na semana passada, fui abordado em um evento por um colega fotógrafo que quis repercutir as minhas postagens sobre o assunto. Praticamente cochichando ele me disse que tinha sido uma coragem imensa da minha parte falar no assunto. Ele relatou saber de várias situações assim, mas afirmou: “ninguém tem coragem de falar por medo de ficar de fora do mercado”, ou seja, não ser mais indicado. Pois está dito ou, melhor do que dito, agora também está estampado em página de jornal.

João Paulo Baxega, é jornalista e celebrante de casamentos

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