
Uma das características do trabalho do celebrante de casamentos é a personalização das cerimônias por meio da história do casal. Mas será que precisa ser sempre assim?
Nessa minha trajetória, encontrei alguns casais que me pediram para não contar suas histórias ou ser extremamente superficial ao falar do passado deles. Parece um pedido estranho se você adora o trabalho dos celebrantes exatamente por essa vertente, mas acontece muito.
Lembro-me claramente do primeiro casal que me fez esse pedido. Noivos de Piracicaba. Eles me explicaram que muitos não sabiam dos detalhes do início de namoro. Era um romance proibido e que eles mantiveram em segredo por quase um ano.
Esse é o tipo de história que, de fato, só cabe ao casal. Trata-se de uma exposição desnecessária e, claro, sigo esse pedido de discrição feito por eles. Ajo assim também quando os noivos me contam histórias que consideram engraçadas, mas que percebo que irão expô-los. É o caso de passagens que incluem separações e até terceiros. Sugiro que aquela parte da história fique na particularidade de ambos. Uma cerimônia de casamento nunca deve causar constrangimentos.
Mas há um outro tipo de casal: o que julga desnecessário ou pretencioso ficar enaltecendo detalhes do namoro e do noivado durante a cerimônia. É o caso da Rafaela e do João Paulo, casal que me deu a honra de celebrar o casamento deles em São Bento do Sapucaí. Eles amam a trajetória que construíram juntos, mas me pediram uma cerimônia focada em mensagens de amor, união, conexão e vínculos.
A princípio, temi que a cerimônia pudesse ficar arrastada, óbvia e pouco interessante. Decidi “abrir o coração” para eles. Revelei esse meu temor, mas mantiveram a decisão e disseram que confiavam em mim, que tinham certeza que eu daria conta dessa cerimônia mais reflexiva. Ou seja, a pressão foi grande.
Para minha sorte, eu estava equivocado. Precisei de uma inspiração a mais para escrever o roteiro deles, mas funcionou. Foi uma cerimônia leve, realizada no heliponto de uma pousada, com a brisa das montanhas, a Pedra do Baú ao fundo e mensagens sobre o que de fato nos levou até lá: sentimentos.
Conto essas histórias porque, a partir de hoje, quando você for a uma cerimônia de casamento na expectativa de ouvir a história do casal e o celebrante não entrar nesse mérito, lembre-se que o motivo pode ser como um desses exemplos que trago acima.
Também trago essa reflexão nessa minha última coluna do ano porque percebo alguns casais receosos sobre poderem ou não interferir no conteúdo da cerimônia. Até tímidos em perguntar sobre isso ou de me direcionar. Então, se você vai se casar e escolheu um celebrante, reforço: a cerimônia é sua, você tem liberdade total para recomendar uma linha a ser seguida. O celebrante é um contador de histórias? Com certeza. Porém, o direcionamento é sempre dos noivos.
João Paulo Baxega, é jornalista e celebrante de casamentos
