Uma demanda tem me chamado muita atenção nesse início de ano. A grande procura por casamentos bilíngues. Isso sempre aconteceu, porém em menor proporção. Apenas em janeiro, seis casais me consultaram sobre a possibilidade de celebrar o casamento deles em duas línguas.
Ao ser procurado, sempre busco dar um panorama sobre o impacto que uma cerimônia em duas línguas tem nos convidados. Sou sincero: o risco é grande. A ideia da cerimônia bilíngue é incluir convidados que chegam de outros países para prestigiar o casal, mas, ao mesmo tempo, é preciso saber conduzir para que a cerimônia não fique confusa ou cansativa. O objetivo é nobre, mas, na prática, o resultado pode não ser tão eficaz.
Gosto sempre de contar sobre a minha última cerimônia que teve momentos em inglês. O casamento da noiva brasileira com o noivo americano foi realizado em Caçapava. Eles queriam muito que homenageássemos a mãe do noivo e o filho dele do casamento anterior, ambos presentes na cerimônia, além do pai e do irmão falecidos, esse último durante a Guerra do Afeganistão. O noivo escreveria essas homenagens e me caberia lê-las. A ideia foi ótima, mas durante a execução algo que me chamou a atenção: o comportamento desinteressado de parte dos convidados brasileiros que, claramente, não entendia o que eu dizia. Percebi aumento de conversas e feições alheias ao que estava acontecendo.
Depois dessa vivência passei a alertar casais que me procuram para cerimônias bilíngues. Nesses casos, ao optar por incluir os estrangeiros também é feita uma escolha por excluir os brasileiros que não entendem outra língua, seja qual for. Mesmo que momentaneamente, mesmo que em poucas frases, sempre haverá alguém sem entender. Para escapar desse cenário, a escolha mais óbvia na condução de cerimônias bilingues é sempre optar por frases curtas em uma língua e, logo na sequência, repeti-las na segunda língua. Cabe meu respeito a quem faz ou gosta desse formato. Mas, preciso dar minha opinião sincera: a cerimônia fica truncada, cansativa e arrastada.
Para driblar as situações que descrevi, deixo uma sugestão encontrada por noivos de São Paulo que me deram a honra de conduzir a cerimônia deles. A noiva convidou os “pais americanos” que a acolheram durante o intercâmbio anos antes. Eles vieram dos Estados Unidos e falavam apenas inglês. Contudo, os noivos não queriam uma cerimônia com partes em outra língua e encontraram uma solução muito interessante. Eles me pediram que adiantasse a conclusão do meu roteiro para que houvesse tempo de enviar para uma amiga traduzir e diagramar em formato de folheto, parecido com aqueles de igrejas, porém em um papel de gramatura mais sofisticada. Ambos receberam uma cópia e acompanharam a cerimônia da primeira fila sem perder nenhum detalhe. De tempos em tempos, eu sinalizava em inglês a parte da cerimônia em que eu estava, dizia apenas o cabeçalho, e assim não havia risco de eles se perderem no folheto. Ao final da cerimônia, o “pai americano” me procurou para dizer que também celebra casamentos nos Estados Unidos e que tinha gostado demais da condução de uma cerimônia no Brasil. Fiquei muito feliz!
Gosto sempre de deixar esses dois exemplos para a reflexão dos noivos. Por vezes, o casal acredita que a cerimônia bilíngue irá incluir estrangeiros e até oferecer até um glamour a mais, porém, o risco de não funcionar é enorme.
João Paulo Baxega, é jornalista e celebrante de casamentos

Parabéns, sempre!!
Sempre trazendo orientações.